Este artigo é baseado numa conversa do Voices & Visions, um podcast produzido através de uma parceria entre a Tutto Passa Agency e a TechCabal, que explora as pessoas e ideias que moldam a economia de inovação de África.
Nalguns dias, George Odo pensa em pessoas idosas em restaurantes a lutar com as lanternas dos telemóveis para ler ementas. É uma observação pequena, quase engraçada. Mas para ele, diz algo mais profundo sobre mercados, comportamento e a rapidez com que os sistemas evoluem enquanto as pessoas ficam para trás.

Odo, sócio sénior da AfricInvest, uma firma de private equity pan-africana, passou quase duas décadas a analisar mercados antes de estes se revelarem completamente. Hoje, trabalha em capital, política e empreendedorismo em África e, cada vez mais, em salas de aula como as da Columbia Business School.
Mas a tensão no seu pensamento não é entre África e o capital global. É entre o que as universidades africanas ensinam e o que os mercados africanos realmente exigem.
"Suponho que sim", diz ele quando questionado se se considera um negociador numa conversa gravada no Voices & Visions, um podcast apoiado pela Tutto Passa Agency e pela TechCabal. "Tenho estado no mundo dos negócios há algum tempo, realizando negócios principalmente em private equity, mas trabalhando com colegas envolvidos em negócios de crédito privado e capital de risco."
É uma resposta modesta para alguém que ajudou a mobilizar capital por um continente onde as regras de investimento raramente se mantêm estáticas.
Antes da AfricInvest, Odo passou uma década na CARE International — uma organização humanitária que combate a pobreza global — a trabalhar em África Oriental e Austral em microfinanças e desenvolvimento de PME. A transição do financiamento de organizações não governamentais (ONG) para o private equity, afirma, não foi apenas uma mudança de carreira; foi uma rutura filosófica.
"Percebemos que distribuir ajuda não é sustentável", diz ele. "A grande diferença foi usar capital comercial em vez de capital suave. Capital comercial, sem segunda oportunidade."
Essa frase soa como um aviso, porque no mundo de Odo, o capital não é paciente. É condicional e exige disciplina, estrutura e clareza desde o primeiro dia — algo que ele acredita que muitos fundadores africanos ainda subestimam. E algo que, sugere, as universidades africanas raramente ensinam com suficiente profundidade.
Na perspetiva de Odo, uma das maiores distorções no empreendedorismo africano é a importação intelectual.
"As pessoas chegam com term sheets que funcionam noutros lugares e tentam copiar e colar", diz ele. "Não funciona assim. É preciso pensar no contexto."
A palavra "contexto" surge frequentemente quando fala. É o seu atalho para tudo o que torna os mercados africanos estruturalmente diferentes: procura fragmentada, infraestruturas desiguais, mercados de capitais pouco desenvolvidos, volatilidade política e um ecossistema de financiamento ainda fortemente dependente de investidores estrangeiros.
Os mercados emergentes representam agora cerca de 30% da atividade global de private equity e capital de risco, observa. Mas África continua a ser uma fatia pequena. O capital, quando chega, é seletivo.
"Vimos os fluxos regressar — Quénia, Nigéria, África do Sul, Egito — mas ainda é cauteloso", diz ele.
O risco, na sua visão, não é apenas financeiro, mas também sistémico.
"Não se pode ter uma eleição em que alguém afirma ganhar com 98%", diz ele. "Os investidores não gostam de instabilidade."
As lacunas de infraestrutura agravam o problema. África, nota ele, ainda alberga apenas uma fração da capacidade global de centros de dados. O comércio intra-africano mantém-se abaixo dos 20%, muito aquém de outras regiões onde ultrapassa os 50%. Estes fatores moldam a forma como os negócios são estruturados, como as startups escalam e até onde o capital consegue chegar.
A crítica de Odo estende-se à forma como as universidades africanas continuam a ensinar o empreendedorismo como uma aspiração. Os estudantes das escolas de negócios do continente aprendem planos de negócios, técnicas de apresentação e metodologias de dimensionamento de mercado. Mas raramente aprendem como o capital se comporta realmente em ambientes de fase inicial.
Ou como a diluição funciona na prática, e por que razão uma nota de Simple Agreement for Future Equity (SAFE) pode ser preferível ao capital próprio em determinados negócios de seed.
"Aconselhei-o a não aceitar como capital próprio", diz Odo sobre um fundador a quem foi oferecido 1 milhão de dólares em capital inicial. "Aceite como nota SAFE ou obrigação convertível para evitar a diluição."
Segundo Odo, este é o tipo de conselho que normalmente circula nos comités de investimento, mas não nas salas de aula africanas. E para ele, esse é precisamente o problema.
A lacuna no mercado é, portanto, de exposição, não de entusiasmo. As universidades quenianas, sugere, ainda estão demasiado afastadas da mecânica dos negócios nos mercados reais, onde o capital é estruturado, o risco é avaliado e os fundadores negoceiam a partir de posições desiguais.
Até o planeamento de sucessão, observa, raramente é ensinado com urgência. Aponta para um padrão em que as empresas familiares têm dificuldade em fazer a transição do fundador para uma gestão profissional, ou da riqueza de primeira geração para a continuidade institucional.
Sem essa transição, a escala permanece limitada.
Uma das observações mais incisivas de Odo é que a economia formal de África interpreta mal a sua própria força informal.
"As PME e as MPME têm fluxos de caixa muito mais elevados", diz ele. "Um micro negócio que vende roupa em segunda mão tem fluxo de caixa o dia todo."
Os bancos, acrescenta, foram lentos a reconhecer esta realidade até que instituições como o Equity Bank do Quénia e o NCBA começaram a orientar-se para modelos de crédito baseados no fluxo de caixa. Essa mesma cegueira, argumenta, ainda existe em partes do ecossistema de startups, onde a atenção é frequentemente desviada para tecnologia à escala de capital de risco em vez de negócios geradores de caixa.
Então, por que razão um homem como Odo ensina ou se envolve com instituições como a Columbia?
Na sua perspetiva, a resposta não é que as universidades africanas careçam de talento; pelo contrário, frequentemente carecem de proximidade com capital em escala. Na AfricInvest — que conta agora com Nairobi como o seu segundo maior escritório depois de Tunis — ele observou como o capital global se comporta quando encontra a complexidade de África.
No fim de contas, o argumento de Odo não é que as universidades africanas estão a falhar. É que estão incompletas.
Ensinam o empreendedorismo como inspiração quando os mercados exigem execução. Ensinam modelos de negócio enquanto os investidores avaliam o risco. E algures entre esses dois mundos encontra-se uma geração de fundadores africanos a tentar traduzir ambição em empresas que sobrevivem ao contacto com a realidade.
"É preciso pensar no contexto", diz Odo novamente, quase como um refrão.
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